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Arte independente revolucionária virtual e o contexto histórico diante da pandemia

Vivemos na era da pós-modernidade, cuja característica mais nociva é a relativização da verdade: o pensamento de que todas as versões possíveis de mundo são equivalentes. Não são. A verdade já está posta, precisa é ser encontrada, percebida. E para isso é imprescindível primeiro identificar quais são as falsas afirmações até que reste a melhor aproximação. Quanto melhor e mais preciso for o entendimento de um fenômeno, mais próximo se estará da verdade sobre aquele mesmo fenômeno. Nestes tempos sombrios, que saibamos evitar mistificações, falácias e fanatismos. Para escapar dessas armadilhas, é preciso então um método e uma teoria que permitam que nossa compreensão do mundo seja a mais próxima possível da realidade. Esse é o principal propósito da ciência, consequentemente, seu papel social. Precisamos mais que nunca nos apoiar nela, bem como no raciocínio lógico da filosofia. Além disso, devemos ser capazes de evidenciar no pensamento religioso que tipos de mitos ele dissemina para influenciar a cultura.


A centralidade do pensamento científico na busca da verdade é essencial para a compreensão mais precisa do mundo concreto. Mas de que forma a ciência pode ser útil?

Quando aprendemos a utilizar sua metodologia, pois pensar cientificamente é procurar enxergar as coisas do mundo como elas realmente são. A ciência esclarece desinformações e sensos comuns que só nos tem feito ficar mais e mais desorientados. Confusão e imprecisão nos deixam vulneráveis a ascensão da lógica fascista, que se aproveita disso para se apresentar como a única solução possível capaz de ordenar o mundo. Como alunos e pesquisadores de ciências humanas, percebemos este momento histórico com enorme potencial de provocar uma mudança radical na forma como a sociedade se organiza. E para analisar conjunturas sociais com boa precisão, consideramos que o melhor método disponível atualmente é o MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO.

Seu procedimento consiste em fazer leituras utilizando basicamente três perspectivas: (1) da realidade considerando as expressões tangíveis do mundo concreto, (2) da história como condicionando sujeitos e conjunturas presentes e (3) da dialética como processo de revelar contradições e delas obter uma síntese. Então, de forma bastante simplificada, usar essa ferramenta é olhar para as situações e se perguntar: o que isso tem de palpável e concreto? Como o passado molda esse fenômeno? Que contradições estão ocultas ali? A que conclusão chegamos a partir dessas incoerências?

De posse das ferramentas da ciência para interpretar corretamente uma dada conjuntura, é essencial saber COMO pretendemos nos posicionar politicamente diante delas.

Penando nisso, diante da crise agravada pela pandemia da COVID-19, consideramos que a arte pode ser uma disseminadora de afetos que direcionem a transformação da sociedade num sentido mais humanitário. O isolamento de uns pode ser tempo de distração apaziguadora ou de reflexão crítica. A intensificação da exploração e do morticínio de outros tendem a levar a um poderoso sentimento de revolta. Além disso, a internet tem hoje o maior alcance de disseminação da informação que qualquer outro meio de comunicação jamais teve. Essa conjuntura pode e deve ser bem aproveitada pelos artistas. Seja evidenciando-se na sua obra, seja, no mínimo, transparecendo a partir da sua consciência política e postura revolucionária. Não nos esqueçamos que essa contingência mundial nos fez perceber ainda mais intensamente a precariedade de nossa condição de trabalhadores.

Esta pandemia tem evidenciado com clareza a exploração do trabalhador para manter a expansão econômica como mais importante que o valor intrínseco da própria vida humana.

Exceto aqueles muito poucos para quem é direcionada a maior parte dos recursos materiais e financeiros disponíveis, a classe trabalhadora é a maioria esmagadora da população mundial. Essa condição nos conecta material e historicamente a todos – público e classe artística – como uma só classe. Nos reconhecermos trabalhadores da arte evidencia a própria arte enquanto trabalho, portanto, enquanto força transformadora.

Todos são explorados enquanto trabalhadores. A classe artística não por acaso é uma das mais desvalorizadas no modo de produção capitalista.

Isso ocorre justamente por seu potencial transgressor, capaz de ressignificar os afetos na contramão do senso comum. Ocorre, no entanto, que esse mesmo poder criativo pode se acomodar à lógica do Capital, colocando-se a seu serviço. É o que observamos na perspectiva do ENTRETENIMENTO, que influencia a produção artística na atualidade. No universo do marketing, especificamente, a diretriz é a identificação e o cultivo de “nichos”: a segmentação dos consumidores. É dividir para conquistar. A arte – como expressão da liberdade – pode tudo, pode inclusive suicidar-se simbolicamente. Será preciso então ressuscitá-la, não permitindo que se reduza a mera mercadoria, reproduzindo lógicas que a aprisionem cada vez mais nessa condição. Esse pensamento deve ser diretamente desafiado para que seja de uma vez superado. A arte é capaz de intervir em como percebemos a realidade, evidenciando o valor do trabalho e a exploração que todos sofremos enquanto trabalhadores.

Arte não é apenas mercadoria. Público é mais que somente consumidor. Arte é afeto transformador, pleno de potência, amplo e veloz disseminador de sentidos.

É assim que interferimos na cultura da sociedade. Se quisermos aproveitar esse momento histórico único, entender como o capitalismo molda nossa intervenção artística no mundo se torna mais importante que a própria produção da arte em si. Quando reproduzimos, em nossas apresentações artísticas, posturas e atitudes guiadas apenas pela lógica do mercado, acabamos por reforçá-la inadvertidamente no imaginário do nosso público. É como se disséssemos implicitamente: “a arte é mercadoria e você é consumidor, portanto, temos que apresentar o que você acha melhor e não aquilo que possa nos tornar melhores”. Dessa Roda de Samsara com suas crises cíclicas, cada vez mais mortíferas, podemos recomeçar a subida – o que tem se traduzido no discurso de “passar por isso juntos” – ou fazer a diferença saindo de vez do carrossel – “revolucionando isso juntos”. Esse processo revolucionário começa conhecendo o papel e o significado da arte, dando a perceber o valor central do trabalho e do trabalhador na forma como a sociedade se organiza. Trata-se, em última instância, de mudar a forma como a sociedade se pensa.

Entender arte e cultura cientificamente pode pôr fim ao trabalho de Sísifo do capitalismo. Por isso, é prioritário nos vermos como trabalhadores e, portanto, revolucionários em potencial.

Arte é a REPRESENTAÇÃO do mundo real. A ciência é a arte de desencantar do mundo, a arte é a ciência de seu encantamento. Sua natureza é complementar à ciência, à medida que é o conjunto de todas as expressões possíveis de imaginar a realidade. Arte é o “concreto pensado”. Exatamente por isso é tão plena de possibilidades, formas e manifestações. A arte é o lugar da liberdade plena dos sujeitos históricos sociais. A grande questão que se coloca é que o público da arte nem sempre tem consciência de que ela é esse espaço do não-ser, do imaginário, do representado. Que se valha então de sua natureza transgressora e criativa para evidenciar o seu duplo: a realidade. Portanto, para que possa ser percebida como o que de fato ela é, a arte precisa ser política, propositiva e lúcida. Que seja política e, portanto, dialética quando denuncia as contradições do que nos trouxe a esse estado de coisas. Que seja propositiva à medida que essas mesmas contradições se expressem em protesto, evidenciando as raízes dos desconfortos socialmente camuflados. Que seja lúcida à medida que nos inspire a agirmos todos em direção de formas revolucionárias de nos organizarmos enquanto sociedade.

A potência da arte se revela nos efeitos que provoca quando imagina novos mundos possíveis com seus afetos. Nós, profissionais das artes, somos força de trabalho que interfere na cultura da sociedade em que vivemos.

“A cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo”.

A arte, como disseminadora de múltiplas visões possíveis, está inserida no que entendemos como cultura. No entanto, cultura não é só arte. Outros elementos compõem a cultura: ideologias, a organização da sociedade, educação, senso comum, religiões, identidades, entre outros. Nesse sentido, é fundamental que nós, como artistas, tenhamos consciência de como essas outras forças externas nos atravessam, bem como as construções psíquicas que se dão a partir delas. De forma resumida, a cultura atravessa o artista antes que sua obra atravesse a cultura. Então, nossa grande responsabilidade social consiste justamente em perceber que – como qualquer outro mortal – somos igualmente influenciados e condicionados pela política e pelos afetos. É preciso canalizar esse impulso emocional indesculpável de expressar-se tecnicamente na busca de produção de sentidos. E é por isso que o artista deve recuperar e ampliar seu lugar histórico como disseminador de uma postura revolucionária diante do mundo. Isso não significa abandonar tudo o que ele produz, significa usar sua sensibilidade para fazer escolhas artísticas que estimulem as pessoas a perceberem as causas e as consequências de permanecerem alienadas. Significa, para além de trazer informação e conforto, fazer nascer o sentimento de que as coisas precisam ser radicalmente diferentes. Para que não se acomodem esperando esta crise passar até que chegue a próxima.

Esse manifesto pretende iniciar um movimento estratégico, direcionado politicamente, reafirmando o poder revolucionário da arte, sem perder de vista nossas possibilidades artísticas. 

É preciso então, para além de garantir nosso sustento material, que nos tornemos artistas mais conscientes politicamente, capazes de difundir consciência revolucionária. Não se trata negligenciar a busca por nosso sustento em detrimento de idealismos. É maior que isso. Trata-se de ampliar nossa compreensão de mundo para que possamos ser agentes de transformação social. Nossa proposta tampouco é de uma arte doutrinária ou panfletária. Pelo contrário. Queremos é contribuir para estimular o pensamento crítico científico promovendo o debate baseado em análises de conjuntura que não maquiem a realidade. Assim, nos direcionaremos estrategicamente por ATOS POLÍTICOS. Estudar e perceber como a realidade opera é transferir essa consciência para a nossa própria produção artística. Considerarmos que a arte é política e que deve contribuir com essa perspectiva é torná-la coerente com as verdadeiras necessidades sociais. Se a arte é transformadora e nos atravessa a todos é a transformação do artista pela consciência do que o atravessa que será capaz de fazer com que essa conscientização se propague.

Trata-se de mantermos o trabalho que garanta nossa subsistência enquanto buscamos transformar as condições de nossa existência, partindo da nossa própria conscientização política.

Dessa forma, à medida que identificar um futuro possível é condição suficiente para que esse mesmo futuro seja alterado, nós – da BacamArte e da 202 Filme – entendemos que a revolução é necessária e inevitável. É preciso – mais do que nunca – se posicionar de maneira mais consciente e crítica. Pensando nisso, estamos propondo a formação um grupo de discussão que nos habilite a fazer apresentações no canal da 202 Filmes no Youtube. Seriam espetáculos de vários artistas, cada um em sua casa, numa ação coordenada, como acontece presencialmente aqui na BacamArte. No entanto, como já colocamos, é importante que não reproduzamos atitudes e discursos que se alinhem com atitudes e estéticas fascistas de banalização do mal, com a lógica burguesa de exploração do trabalho e com relativismo nocivo da pós-modernidade. A única maneira de fazermos isso – por consenso e não por convencimento ou deliberação – é nos permitindo o debate. Como integrantes da sociedade civil, como classe artística e trabalhadora e como formadores de opinião junto ao nosso público, precisamos estar sempre atentos e fortes. Diante de grandes desafios, precisamos contribuir à altura. Não podemos deixar que se amplie um entendimento de que esta é só mais uma crise que será superada. É mais que isso. Trata-se de como iremos superá-la. Trata-se do que queremos para o porvir. Precisamos que as contradições desse sistema perverso fiquem evidentes para todos. Para além de alívio e entretenimento, que sejamos capazes de veicular desconforto e lucidez. Para que isso ocorra, é importante que estejamos nós mesmos desconfortáveis e lúcidos.

Façamos, então, um festival virtual para arrecadação de fundos, mas com a consciência de que é preciso expor de uma vez as contradições de um sistema que nos subjuga a todos.

De maneira mais pragmática, o primeiro passo seria nos reunirmos em chamada de vídeo para iniciarmos o debate político que permita organizar as manifestações artísticas estrategicamente. Deixaremos a seguir um convite para o grupo de WhatsApp onde esses primeiros acertos e direcionamentos se darão. Primeiro nos entendemos politicamente, depois nos posicionamos estrategicamente para a ação. Não fazer isso é correr o risco quase certo de abandonar perspectivas que nos libertam em detrimento daquelas que nos aprisionam.

O link do grupo para iniciarmos a construção de uma estratégia política e revolucionária através da arte é: (…)

Paralelamente a este projeto, a BacamArte se propõe a fornecer todo apoio ao nosso alcance para outras iniciativas que porventura ocorram. Ações como a disseminação das hashtags no Instagram; subsídios para recebimento de valores; força de trabalho cooperativo, técnico e estratégico; apoio na inscrição de editais; entre outros; são algumas das formas como podemos contribuir. Nosso compromisso, exposto no Primeiro Manifesto BacamArte, é priorizar o artista independente e estimular uma cena cooperativa em Niterói. Não hesitem em nos procurar: estamos de braços abertos e esperamos logo poder abrir também e novamente nossas portas para continuar no mundo real esse processo que desejamos iniciar virtualmente.

Estamos à disposição para ajudar como for possível para manter e ampliar a cena niteroiense de artistas independentes, virtualmente ou não.

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